Chegamos ao Centro de Promoção do Menor - CEPROM da Vila Ideal lá pelas 15h40m. Estávamos atrasados, por isso as crianças que nos aguardavam deveriam estar nos esperando ansiosas. Afinal de contas, a ida do Saci Ação àquela instituição significa para eles receber abraços e carinhos, brinquedos e brincadeiras, sorrisos e alegria. O Ceprom abriga crianças até os 6 anos de idade. Algumas foram retiradas judicialmente de suas famílias por intermédio do Conselho Tutelar, pelos riscos de vida que tais crianças estavam submetidas ao conviver num ambiente onde deveria ser o seu espaço do aconchego, da segurança e da vivência do amor familiar. Essas crianças vivem nesse centro, dormindo, almoçando, estudando, lanchando; fazem tudo lá e de lá não saem – suas obrigações e lazer são realizadas nesse mesmo lugar! A instituição também funciona como creche pública, recebendo crianças cujas famílias as deixam e buscam nos horários estabelecidos.
Esse CEPROM é um ambiente muito limpo, arrumado, com pinturas infantis nas paredes, com cadeiras e mesas de tamanho especial para a idade. No entanto, é um lugar que precisa de muita ajuda. Apesar de ser de caráter público, a prefeitura não os concede o mínimo necessário para ter uma boa alimentação, higiene pessoal, saúde e vestimenta. Parece que o bem de mais alto valor, entregue pelo governo municipal, foram as paredes e o teto do centro. Sendo assim, é com muita sensibilidade e amor que eles continuam nesse caminho maravilhoso de oferecer um lar “inventado” para quem não tem um lar “de verdade”.
O dormitório das crianças que vivem na instituição é dividido entre meninas, meninos e berçário. É tipo colégio interno ou alojamentos, onde uma cama fica ao lado da outra, tendo em sua frente mais uma fileira de camas. Sem nada demais, apenas uns bichinhos de pelúcia, velhos, em cima de algumas camas. Sem mesinha de cabeceira, sem abajur nem terço de oração. Apenas lençóis limpos e bastante cobertas. Nesse local um dos alunos, participante do Saci Ação, disse para mim ao ver pela primeira vez, o dormitório deles:
- “Nossa, mas sabe que eu gostaria de dormir dessa forma”, se contagiando pela idéia de dormir entre vários amigos.
Logo em seguida comentei: eu também, desde que fosse por alguns dias. Imagina dormir aqui porque não tem uma casa para voltar, uma família nos esperando com uma comidinha gostosa?!
Para cada uma daquelas crianças, a visita do Saci Ação tem um significado. Pode ser que umas crianças dêem mais valor aos visitantes, acreditando na construção de uma nova amizade fora do seu, praticamente único, ambiente de convívio. Para outras crianças pode significar a esperança de ser adotada, que é o mesmo que imaginar ter um lar de verdade, com família, comida, livre de ser violentada, humilhada, rejeitada e desvalorizada.
É triste! E, infelizmente, antes de ter ido visitá-los eu não entendia a dimensão da carência daquelas crianças, mesmo trabalhando na Escola Saci, tendo contato com a coordenadora do Saci Ação, professora Maria do Carmo, e com os alunos participantes. É preciso “ver para crer”. Temos que ir nesses ambientes onde crianças não podem conviver com os seus familiares, que não tem um abraço gostoso no fim do dia, que não escutam “eu te amo” de vez em quando, não comem seu biscoito predileto (ou melhor, nem sabem qual é o seu preferido) para entendermos o sentido da família na nossa vida! Hoje me sinto muito mais abençoada por Deus por ter uma história “normal” e existir uma família que se interessa, se preocupa, cuida e vibra comigo!
Quando penso naquelas crianças, sinto injustiça por elas não poderem usufruir o prazer de ter uma casa para morar com a sua família; revolta pelos pais que as maltrataram; egoísmo por eu ter tanta coisa supérflua. Mas sinto, sobretudo, um desejo de poder fazer com que o seu dia fique mais colorido, despertando nelas o quanto são especiais, lindas, inteligentes, amadas e encantadoras.
Uma das impressões que mais me marcou foi o sorriso largo que as crianças tinham no rosto. Eu pensei comigo “Meu Deus, são crianças! Inocentes, ingênuas e abandonadas! Elas estão tão felizes com a nossa visita, porque são muito carentes! Eu voltarei para casa e elas, durante grande parte das suas vidas, estarão vivendo em centros como este”. O que elas perderam foi muito mais do que um lar. Perderam, entre outras coisas, a oportunidade de ter um futuro melhor. Qual será a probabilidade delas ocuparem um bom cargo em uma empresa? Qual o percentual dessas crianças que não desvirtuará do caminho do bem? Como estarão e onde viverão essas crianças daqui a 5 anos? São crianças sim! No entanto, já experimentam problemas de um mundo de adultos!
Raquel Campanate de Azevedo – 25/05/2010
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